DeLírios a florescer nas artérias


Por vezes sinto o norte a aproximar-se, quando a escuridão da noite acaba por cair sob os meus ombros, em peso bruto. Pesado e estonteante. A esmagadora solidão faz-me acreditar que o céu, no seu infinito, desliza por debaixo dos meus pés, como se andar, de cabeça na terra e pés ao ar, acomodasse-se banal. E é aterrorizador como o universo conspira em todos os sentidos que inspiramos: solenes (amar)guras. Nestas alturas a agonia faz-me desaparecer entre os desejos inacabados e as memórias que jamais farão vida presente. O passado encaminha o futuro e molda o presente sempre na esperança de se continuar a edificar verdades que não se baseiem apenas em falsos princípios. Acredita-se que não servem somente para preencher as desgraças, mas também para se fazerem vingar na história. Envolvem-se dentro de mim, com tudo o que são, com o que as posso fazer ser, metaforicamente, com o tempo as memórias oferecem-nos as origens que esquecemos. Talvez não será o certo o correto, talvez haja uma similaridade entre o errado e a existência.

A vida é um contraste. Um contraste visível a preto e branco, como sim e não, amor e ódio, paz e guerra. Só se aplaude a democracia que votamos. Mas o medo consterna-se quando menos se espera e os aplausos abafam a nossa liberdade. Não tenho medo de ter medo, tenho medo de olhares, de bocas que não falam e gritam para dentro das suas entranhas venosas; Eu não tenho medo de pessoas, tenho medo da finitude a que as pessoas chegam pelos seus delírios caprichosos, pelas suas rubricas maliciosas e pelos seus medonhos bens sem fins. É correto. A vida é imprecisa. Mal se sabe de que cor são feitos os bancos em que esperamos o tempo. Mas a incerteza não tem de ser a partida do ódio comum. O tempo que vai passando e se carrega dentro da algibeira, à mercê dos nossos dilúvios, é a sombra que não olhamos, mas que nos guia o caminho do silêncio sem que se saiba. A vida é imprecisa por corrermos montanhas e vales, enquanto a loucura que nos cura, deste tempo cheio de pressa, está num olhar cerimonial com o que nos mantém na terra, o céu. Por vezes a espera torna a eloquência um desespero, mas preferimos continuar a caminhar ao encontro das estrelas, como se algum dia as pudéssemos pegar do mesmo modo que trocamos olhares leves e meigos, como se algum dia as pudéssemos cheirar ao perceber que ainda temos connosco a fragrância aconchegadora a argão e camélia, como se suportássemos desejar ser nossa casa o que é do mundo.

Frustrações diárias, constantes e brutais fazem os meus dias comuns.

Mas em caso, não me levem tanto à morte, nem me tragam tanto à vida.

Pois há uma linha muito ténua entre o que achamos sanidade e o que achamos loucura. E o esforço que fazemos para permanecer no lado são só é feito para que não sejamos punidos. Senão, frequentemente iríamos cruzá-la e tudo seria mais interessante. É na fronteira desta dos extremos contrários que as lágrimas consomem os olhos, quando vêem os pés fugirem do chão gélido sob texturas amargas, a cada passo mais precoce, atrevendo-se há longevidade casual. É nesta tristeza vaga que se sublimam lagoas, quando as manhãs são noites e as noites se igualam a dias, quando o olhar tropeça na dormência da expectativa. Despejamos o tempo como se não passasse entre linhas cegas. Com o decair da vida deixamos de olhar por completo, aprendemos a olhar de olhos fechados. E acaba por ser neste semiconstrangimento que a vida respira e o corpo congela a cada catástrofe estridente da guerra entre o existir e o não querer. Ignorância esta que me cobre e sufoca os pulmões amargamente de tal modo que perco o norte. A bússola que há em mim deixou-me sem destino, não sei se cale se abale a minha existência do pouco que me sobeja. Desanima-me não saber para onde me virar, onde ficar, onde respirar. Se antes o sabia, agora não me reserva a mesma certeza. Sinto-me a fervelhar de insanidade que me corroí a carne e me deixa gravemente em ossos argutos. A dor é nada. Grito e nem respiro. Fico, por aqui, até que consiga resfolgar sem asfixiar de aglutinações incertas de uma vida farta.

(Farta de mim que não existo).

Sou. Fragmentos "vazios", pontos que tanto fui como serei e não sou em noites de vácuo intenso que violentam os meus pensamentos em troca da nudez de sentimentos sensíveis. Choro em água seca ao perceber, ontem, que o caminho que me leva a casa nunca me engana.

3 comments:

  1. As tuas palavras provam sempre que mesmo na dor se encontram centelhas de beleza. Mas o que me extasiou neste texto foi mesmo o seu imaculável título.

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  2. Texto encantador e inspirador. A vida é um constante improviso, sem regras nem linhas de seguida. Teremos sempre de viver dores, momentos em que simplesmente lutaremos pela sobrevivência porque nos esquecemos o que é viver e que no final deste filme a gente morre, sem opção de replay.
    O importante é atravessar todas as linhas, todos os limites, fazer o que mais ninguém faz, viver da maneira mais estupida e feliz sem nunca prejudicar ninguém e sempre inspirando alguém.

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  3. ''Pois há uma linha muito ténua entre o que achamos sanidade e o que achamos loucura. E o esforço que fazemos para permanecer no lado são só é feito para que não sejamos punidos. Senão, frequentemente iríamos cruzá-la e tudo seria mais interessante.'' Adorei esta frase. Revi-me muito nela, especialmente se juntar o que falas sobre o medo, mais acima. Eu sou muito medrosa e isso tem muita influência na minha maneira de tomar decisões.

    Miúda este texto tá do caraças, fez-me parar várias vezes e pensar no que escrevias, muito bem :)

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