O peso de amar


Viste-me quando ninguém me via e ali estava aos olhos de quem quisesse olhar ou no mínimo das hipóteses reparar. As minhas energias falharam com a tua proximidade, por coincidência, ou prefiro achar que assim o foi. Tremia cheia de sorrisos miudinhos e perdida de nervos. Era certo e mais que sabido o que se seguia - o meu corpo não suportou a oscilação. Insististe. Tanto que insististe que também quis agarrar sem olhar para trás dois segundos e possuir esse amor que trazias anunciado por todo o teu jeito engraçado, por todo o teu corpo bem recortado. Parecia-se uma realidade que não me cabia por desdenho ou falta de tempo - (oh tempo, perdoa-me mas desta vez terás de ter as costa largas, novamente), era surreal mas estupidamente meu. 
Quanto mais depressa me conseguias decifrar, mais depressa fugia. Não percebia essa tua capacidade de compreender as pessoas num piscar de olhos, mesmo quando nem pestanejava. Eras imprudente demais para as minhas poucas capacidades e isso assustava-me mais que qualquer outras coisa. A tua intelectualidade emocional dava-me arrepios sempre que te sentia por perto, sempre que me rodeavas de abraços. Era bom mas tinha medo do que pudesses ver que eu nunca tivesses reparado em mim, o receio de me conheceres melhor que eu mesma dava-me insónias de semanas inteiras a matutar no que seria que estarias a pensar quando era eu quem te acabava por ocupar os pensamentos, no que seria que terias visto e não me tivesses dito com receio da resposta que terias devolvida. Não suportava saber que me conhecias a quilómetros de distância quando mal te conseguia olhar nos olhos a milímetros da tua cara. Não vou mentir, mas também não confirmo. Foste diferente e sabes quanto isso me agrada. E quem me dera que não soubesses, porque talvez ainda hoje me surpreenderia com o que dissesses. Foste perito no que toca a aparências enquanto me tornava hábil a amar o que não tinha. Deixavas-me completamente à toa, depois de tantas vezes te ter pedido para nunca o fazeres. Mas continuavas a confirmar constantemente a ideia de que tudo seria possível se quiséssemos - logo eu que nunca quis menos. Já era tarde. Deixaste-me frágil e mudaste de vida.
Sem ti percebi que somos apenas almas perdidas à espera que alguma amor nos cure.
Que nos cure muito antes de chegarmos há necessidade de fugir do ar sufocante que, nos faz sentir que pelo menos o choro apaga o vácuo por meros instantes. Não sei se as pessoas se tornam tristes com vocação para serem alegres ou o contrário. Afinal, o amor nunca me levou por completo o vazio que acarto, e sei-o porque o sinto dia a dia a percorrer-me como sangue grosso de sensações distintas que procuram o reverso de si. Tenho sempre algumas tristezas nas minhas alegrias e algumas alegrias nas minhas piores tristezas e, ainda é na tristeza que sempre presencio um encanto que nunca saberei explicar, porque em verdade dita, sinto-me melhor quando me aborrece a alma. A solidão emerge na escuridão - e que bem sabe estar num cantinho escuro de vez a vez na companhia da tua própria presença - e por si só vê-mo-nos em espelhos de vidro cristalino sem que nos ofusquem, à mínima oportunidade com filtros humanizados; assistimos ao deslumbre dos nossos filmes sem arranjos imprudentes que acabam com aquilo que somos e nos entregam àquilo que nunca seremos. E ainda assim, não entendo como o amor nunca nos cura. O amor enche-nos o tempo de promessas para que o tempo passe sem nos apercebermos que o vazio se mantém no mesmo lugar. Logo promessas. Como se alguma vez fosse haver tempo que chegasse para elas - quem ama e promete nunca conseguiu amar ser nenhum, nem nunca se deixou amar. O amor engana-nos quando as promessas que nos mantém vivos terminam e a certeza do tempo que se torna infinitamente pequeno, mata-nos mais do que nos cura.

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